Marcos tinha 67 anos, hipertensão controlada e um sonho de conhecer a Itália com a esposa. No segundo dia em Roma, um infarto leve o levou direto ao pronto-socorro. O plano de saúde brasileiro não cobria nada fora do país. A conta do hospital, três dias de UTI e a repatriação médica chegaram a mais de EUR 45.000. Ele não tinha seguro viagem.
Histórias como essa não são raras. O seguro viagem vale a pena — e este guia explica por quê, em que situações é obrigatório e como escolher o plano certo para o seu perfil.
Por Que o Seguro Viagem Vale a Pena: os Números do Setor
Em 2024, o seguro viagem foi o ramo com maior crescimento de sinistros entre todos os seguros de pessoas no Brasil: +46,7% em relação ao ano anterior, segundo a FenaPrevi com base em dados da SUSEP. Isso significa que muito mais viajantes acionaram o seguro — e receberam indenizações ou assistência que, sem a apólice — o contrato de seguro — teriam pago do próprio bolso.
O setor arrecadou cerca de R$ 965 milhões em prêmios em 2024, crescimento de 13% sobre 2023. Para ter dimensão: em 2021, durante a pandemia, o total era de apenas R$ 337 milhões (FenaPrevi / CNseg). Em três anos, o mercado quase triplicou.
Apesar do crescimento, a maioria dos viajantes brasileiros ainda parte para o exterior sem seguro — segundo estimativas do setor atribuídas à SUSEP e ao IRB+Inteligência, apenas cerca de 30% contratam cobertura. Isso significa que 7 em cada 10 brasileiros que viajam ao exterior estão expostos a riscos que podem custar dezenas de milhares de reais.
O motivo costuma ser simples: muita gente não contrata porque acha que “não vai precisar”. Mas quando o sinistro — o evento coberto pela apólice — acontece, o custo de não ter cobertura pode ser devastador.
Quando o Seguro Viagem É Obrigatório por Lei
Antes de falar em escolha, é útil saber em quais situações o seguro viagem é legalmente exigido — e quando simplesmente faz todo o sentido contratar mesmo sem obrigatoriedade formal.
Espaço Schengen (Europa) — importante para brasileiros: O Brasil tem acordo de isenção de visto com os 26 países do Espaço Schengen. Isso significa que brasileiros podem entrar como turistas sem precisar de visto e, por isso, sem obrigação legal de apresentar seguro viagem na fronteira. A exigência de cobertura mínima de EUR 30.000 se aplica a viajantes de países que precisam solicitar o visto Schengen — o seguro é condição para o consulado emitir o documento.
Para o viajante brasileiro, no entanto, a ausência de obrigatoriedade legal não elimina o risco financeiro. Uma emergência médica na Europa gera custos elevados independentemente de o seguro ser exigido ou não — como ilustra o cenário do início deste artigo. Além disso, agentes de imigração podem, a seu critério, solicitar comprovação de seguro na entrada. Ter a apólice em mãos é simples e elimina qualquer contratempo.
Cuba: Desde 2010, o governo cubano exige seguro viagem obrigatório com cobertura mínima de USD 10.000 para despesas médicas. Viajantes sem seguro podem ser obrigados a contratar no próprio Aeroporto Internacional de Havana — geralmente a preços mais elevados. A exigência está registrada na página da Embaixada do Brasil em Havana (Itamaraty).
O padrão mínimo no Brasil: A Circular SUSEP 667/2022 determina que qualquer seguro viagem internacional vendido no Brasil deve incluir obrigatoriamente a cobertura DMHO (Despesas Médicas, Hospitalares e Odontológicas), abrangendo tanto acidentes quanto doenças súbitas e agudas. Todo produto de seguradora autorizada pela SUSEP já tem esse piso mínimo — não é possível vender, legalmente, apólice que cubra apenas acidentes e exclua doenças.
Quanto Custa uma Emergência Médica Sem Seguro
A pergunta mais direta para avaliar se seguro viagem vale a pena é: quanto você pagaria numa emergência no exterior?
Os valores abaixo são estimativas do setor (valores reais podem variar significativamente conforme o caso, o hospital e o destino):
Estados Unidos:
- Consulta de urgência: USD 300–800
- Fratura simples com cirurgia: USD 7.000–15.000
- Internação por infecção (por diária): USD 10.000–18.000
- Apendicite de emergência: cerca de USD 40.000
- Infarto em idoso com UTI: pode superar USD 80.000
Europa Ocidental:
- Consulta privada: EUR 80–150
- Internação hospitalar: EUR 200–500 por diária
Repatriação médica (avião médico intercontinental): pode superar USD 50.000
O prêmio — o valor pago pelo seguro — para uma semana à Europa geralmente varia de R$ 80 a R$ 300, dependendo da idade e das coberturas (valores variam conforme perfil, destino e seguradora). A desproporção entre o custo do seguro e o custo de uma emergência é o principal argumento para contratar.
Os 6 Cenários em Que o Seguro Viagem Mais Faz Diferença
Emergências médicas não são o único motivo para contratar. Os sinistros mais frequentes cobertos pelas apólices são:
1. Emergência médica no exterior: O mais comum e o mais caro. A cobertura DMHO paga — ou aciona o pagamento direto ao hospital — sem desembolso inicial, conforme condições da apólice.
2. Cancelamento ou interrupção de viagem: Internação antes do embarque ou emergência no destino. A cobertura reembolsa valores não recuperáveis de passagem e hotel — sujeito às condições contratadas.
3. Extravio, furto ou dano de bagagem: Companhias aéreas têm responsabilidade limitada. Uma mala com eletrônicos e medicamentos pode representar R$ 3.000–8.000. O seguro complementa o ressarcimento da aérea.
4. Atraso de voo: A partir de 4 horas (na maioria dos planos), o seguro cobre gastos extras de hotel, alimentação e transporte.
5. Repatriação médica: Em casos graves nos quais o viajante não pode retornar em voo comercial, a seguradora organiza e paga o transporte médico de volta ao Brasil.
6. Morte no exterior: O traslado do corpo pode custar entre R$ 30.000 e R$ 80.000. A apólice cobre os custos de remoção e procedimentos legais no exterior.
O Seguro Viagem Vale a Pena para Cada Perfil?
A resposta é quase sempre sim — mas o tipo de plano varia. Veja o que cada perfil deve priorizar:
Idoso (65+ anos)
O risco cardiovascular e de quedas com fratura é maior nessa faixa etária. Um infarto nos EUA pode ultrapassar USD 80.000. Para o viajante idoso, o seguro viagem com DMHO elevada (mínimo USD/EUR 150.000 para destinos caros) não é opcional — é essencial. Verifique as cláusulas de doenças preexistentes: muitas apólices padrão excluem agravamentos de condições preexistentes. É preciso declarar o histórico de saúde e verificar se há cobertura específica disponível.
Gestante
Complicações obstétricas podem ocorrer em qualquer trimestre. A maioria das apólices de seguro viagem para gestantes cobre urgências obstétricas até entre a 28ª e a 32ª semana de gestação, dependendo da seguradora — verifique esse prazo antes de contratar. Parto planejado é exclusão padrão. Confirme se há cobertura para o recém-nascido em caso de parto prematuro fora do Brasil.
Praticante de esportes e aventura
Esqui, mergulho, rafting, parapente: a evacuação por helicóptero e o atendimento cirúrgico de emergência são extremamente caros. Planos básicos excluem esportes radicais — é necessário contratar cobertura adicional específica para a modalidade praticada.
Mochileiro / viagem longa
Quanto maior a duração e o número de destinos, maior a exposição. O plano anual / multi-viagem costuma ser mais econômico para quem viaja mais de três vezes ao ano. Verifique o limite de dias por trecho.
Viajante de negócios
Viagens frequentes pedem plano anual multidestino. Cobertura de atraso de voo e proteção de equipamentos eletrônicos são especialmente relevantes.
Família com crianças
Verifique se a apólice familiar cobre automaticamente filhos menores ou exige inclusão separada. Capital de DMHO deve ser adequado para cada membro da família.



Como Escolher o Seguro Viagem Certo: O Que Verificar na Apólice
Não basta ter o seguro — é preciso ter o seguro certo. Antes de assinar:
- Limite de DMHO: USD 30.000 atende o mínimo Schengen; USD 100.000–300.000 é recomendado para EUA.
- Doenças preexistentes: o plano cobre agravamentos? Com ou sem declaração de saúde?
- Esportes: as atividades que você vai praticar estão listadas como cobertas?
- Modelo de atendimento: pagamento direto ao prestador ou reembolso posterior?
- Cobertura de cancelamento: quais eventos são cobertos? Há prazo máximo após compra das passagens?
- Repatriação médica: incluída na cobertura padrão ou é adicional?
- Central de assistência 24h: confirme o número de contato internacional.
Para entender as diferenças entre o seguro viagem contratado e a cobertura do seu cartão de crédito, consulte nosso guia completo de seguro viagem vs. cartão de crédito.
Seguro viagem vale a pena para viagens curtas ou próximas?
Sim. Uma emergência na Argentina ou no Uruguai ainda pode gerar custos elevados para turistas sem seguro. Cancelamento e extravio de bagagem acontecem independentemente da distância. O prêmio para viagens curtas na América do Sul costuma ser baixo — a proteção compensa.
O seguro viagem cobre doença preexistente?
Depende da apólice. A regulamentação SUSEP permite que seguradoras excluam agravamentos de doenças preexistentes, desde que expressamente previsto nas condições gerais. Alguns planos oferecem essa cobertura mediante declaração de saúde e prêmio adicional. Leia as condições gerais com atenção.
O seguro viagem é obrigatório para viajar à Europa?
Para países do Espaço Schengen, é exigência para emissão de visto, com cobertura mínima de EUR 30.000. Brasileiros com isenção de visto não têm obrigação formal, mas recomenda-se contratar e portar a apólice.
O que fazer em caso de emergência médica no exterior?
Antes de qualquer atendimento, ligue para a central de assistência 24h da sua seguradora — o número está na apólice. Autorize o atendimento pela central para evitar problemas com reembolso. Guarde todos os documentos: laudos, notas fiscais, receitas.
Quando contratar o seguro viagem?
O quanto antes após confirmar a viagem. Coberturas de cancelamento têm prazo máximo após a compra das passagens. Não há vantagem em aguardar a véspera do embarque.
Seguro viagem vale a pena para qualquer perfil de viajante — a questão é contratar o plano certo para o seu destino e suas necessidades. Com o mercado de sinistros crescendo 46,7% em 2024, mais viajantes estão usando a proteção que contrataram. Os que não tinham seguro, pagaram do próprio bolso.
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Fontes: FenaPrevi — Seguros de Pessoas 2024; CNseg / Revista de Seguros; SUSEP — Circular 667/2022; Itamaraty / MRE — Alerta Migratório Espaço Schengen; Embaixada do Brasil em Havana.


